Sinto um vazio enorme dentro de mim, tudo perdeu o sentido, a cor,
o som e a forma...
Todo dia vejo o rosto de minha mãe, seu sorriso, gestos e ouço sua voz, fico esperando ela me dizer
algo, dá um beijo na minha cabeça, fazer alguma pergunta.
Tudo perdeu a
importância, pois me sinto sem referências, sem chão, solitária, abandonada,
apesar do carinho de minhas irmãs e amigos.
Sempre quis fazer
exposição na Europa e pude realizar essa vontade a tempo dela poder sentir
orgulho, mas escondi as dificuldades enfrentadas para tal êxito.
Agora tanto faz
realizar outras exposições, porque a vida se mostrou cruel e impermanente. De repente
algo muito sagrado pode simplesmente sair de cena.
Porque tudo é temporário.
Vou chegando a conclusão que viemos a Terra apenas para sermos útil ao todo, que o
particular é mera ilusão. Que a realização pessoal só importa se tiver utilidade para a comunidade.
Brigamos tanto por
coisas sem importância, porque alguém pensa diferente, têm preferências
diferentes, religiões diferentes, é mais rápido ou mais lento de pensamento e
ação, se veste diferente, etc.
Para que tudo isso?
É vontade de padronizar a
todos?
Venho acordando e percebendo que não
adianta ter apegos porque nada nos pertence.
Amamos e ficamos felizes com nossos afetos
ao nosso lado e quando eles retornam ao plano espiritual de supetão, sem um processo
sério de saúde que justifique o falecimento, um enorme buraco sufocante
preenche nosso interior. Respiramos com dificuldade como num acesso de asma, os
pensamentos ficam soltos e misturados no tempo e no espaço. Andamos como zumbis
recém saídos de tumbas, e ao deitar não sabemos se dormimos e sonhamos ou só pensamos...
Os dias passam e continuamos sem
entendermos ao certo o que está acontecendo, num tipo de anestesia, sem
sentirmos direito o chão sob os pés. As últimas lembranças do que desencadeou o
fato vão e voltam como fantasmas assustadores e nos trazem muita raiva e
revolta!
Por volta de um mês mais ou menos, comecei
a sentir o chão e os pensamentos coerentes vinham retornando, mas a tristeza continuava persistente!
As mensagens recebidas diziam para
ficarmos bem, porque ela também estava em período de adaptação. Esqueceram de
nos dar uma receita de como fazer isso, não vou carregar culpa porque sofro.
O que já entendi no espiritismo, é que
nossa verdadeira morada é a espiritual e levamos um tempo para nos
readaptarmos quando retornamos para lá.
Desejo do fundo meu coração que ela fique bem e a imagino trabalhando e colaborando nas tarefas de lá, pois sempre foi dinâmica e gostou de trabalhar além de estar na maioria das vezes com alto astral e muita energia.
O buraco???
Foi provocado por esse terremoto de dor
gigantesca que arrancou a raiz do amor sem medidas da minha mãe, raiz que me
sustentava e dava segurança.
Esse buraco continua comigo.
A dimensão dele é tão grande que não sei onde começa ou se termina, parecendo que ainda estou em plena queda de um precipício.
Hoje é uma terça dia 17/01/2017 e daqui a quatro dias completarão dois meses
que ela retornou ao outro plano...
Estou mais calma, embora chore todos os dias.
Ainda acordo sem acreditar que não a verei mais fazendo o café e cortando nossas frutas, falando sem parar...
Estou tateando meu chão em busca das
minhas raízes individuais para plantá-las onde estavam as de minha mãe, sei que
ali ficou uma terra fértil com adubo do amor incondicional. Nesse lugar
encontra-se o meu paraíso, mas ainda não sei como conquistá-lo.
E daí, se só viemos a Terra dos Encarnados para sermos útil????
Meu mundo interno sofre nas suas estruturas e lá fora a vida continua e devo continuar também apesar dessas rachaduras!
Na verdade somos parte da engrenagem, se quer mudar o mundo primeiro mude o seu mundo de dentro e assim será uma gotinha a regar a todos...
Hoje 21/ 01/2017 fazem exatamente dois meses que minha mãe desencarnou por causa de uma bactéria hospitalar, infecção hospitalar que fique bem claro isso. "O incrível é que basta andar próximo de qualquer hospital de Salvador para ver os profissionais da saúde passeando de jaleco nas ruas ou fazendo lanchinho nas lanchonetes dos hospitais com seus respectivos jalecos. Um tipo de status para eles, eu teria vergonha de levar as bactérias ao hospital."
As vezes fico melhor e em outras com acessos de raiva de tudo e de todos. Briguei e reclamei muito com Deus e a espiritualidade, e reclamei das palavras dos centros espiritas que disseram: "era a hora dela"...
Se não posso fazer nada, então vou aceitar que era mesmo, tanto faz... ACEITAR e pronto!
Li sobre a vida de alguns santos, a maioria sofreu bastante, mas não deixaram de praticar o bem. No caso deles penso que talvez para não se desviarem dos seus caminhos, alguns como uma forma de lembra-los o que era importante. Que ajudar a sociedade, comunidade, grupo de pessoas era mais importante que dores particulares...
Estou com uma visão péssima da vida, a de que a gente vem para cá sofrer porque o sofrimento depura o caráter. Se comporte bem, não faça mal aos outros e respeite a todos e lembre-se de ser honesto e útil em qualquer situação da vida mesmo com dores particulares...
O sofrimento é passageiro, é o que dizem...
Tudo é passageiro porque só ficam as lembranças (as memórias) e nos impressionamos muito com as mais dolorosas...